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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A MAIÊUTICA E O DESPERTAR DA INTUIÇÃO

por Luís A. W. Salvi (LAWS)
www.agartha.com.br

Arte: “A morte de Sócrates”, de Jacques-Louis David, 1787 


“As idéias têm a mesma função das sementes; as idéias são as sementes da consciência.”
 
Os grandes professores da maiêutica, acreditavam que possuímos o conhecimento de forma inerente, porém este pode estar adormecido ou encoberto sob uma capa de falsas idéias e preconceitos. Acreditavam que a mente é como a musculatura, que necessita ser treinada e se exercitar para bem funcionar. O maieuta procurava não dar o peixe, mas ensinava a pescar, a não ser que fosse solicitada uma resposta direta, e ainda assim nada se oferecia pronto, até como forma de ativar a memória e a percepção.
 
A mais famosa frase de Sócrates, “Só sei que nada sei”, seria parte desta “didática”, porque ele não desejava se apresentar como sabido ou “guru”, para não atrair a atenção sobre si e para não criar dependência nos outros, contrastando assim com os pedantes sofistas de sua época que tudo pretendiam (parecer) saber. A Maiêutica é uma apologia ao fato de que a forma da didática pode ser tão ou mais importante do que o conteúdo do aprendizado –e nisto ele já antecipava à idéia de M. MacLuhan de que o meio é a mensagem. Se os sofistas haviam se especializados em deturpar o pensamento, Sócrates tratou de depurá-lo ao máximo.
 
A Maiêutica estimula em cada um o dom de pensar, que é aquilo que há de mais importante em Filosofia. Para Sócrates, “a sabedoria começa na reflexão”, por isto ele queria estimular a capacidade do raciocínio –mas também de “sentir”-, nas pessoas. Devemos compreender o quanto isto está longe da doutrinação vã, da crença cega, da reprodução automática, da verborragem vazia, da nefanda “letra morta”...
 
Pela mesma razão, e como herdeiro de uma longa tradição oral, Sócrates não praticava o registro escrito das coisas, pois isto acomodaria a mente. Platão já o fez, algo a contragosto, mas tratou de fazê-lo através da “técnica” do dialogo, que é a própria maiêutica transposta didaticamente ao papel para a posteridade.
 
Sócrates tinha em mente que, aquele que detém um conhecimento verdadeiro, somente pode praticar o bem, pois o saber legítimo não vem da mente, e sim da alma. O bom conhecimento não está em acumular informações, mas em capacitar a mente para pensar e em abrir o coração para a experiência da vida cada vez maior. Cada informação deve servir apenas para proporcionar uma transformação luminosa e para a expansão da consciência, do contrário ela se torna mero entulho ideológico.

 Neste aspecto, seu discípulo Platão era definitivo ao sentenciar: "Só te ama quem ama tua alma". Nossa essência é o que realmente conta, ao fim e ao cabo de tudo. Neste sentido, o professor Henrique José de Souza tem uma bela frase: “A alma da educação está na Educação da Alma”. Sócrates criou um método clássico para isto, ou divulgou-o, de grande importância na educação espiritual em particular, pois uma pessoa também deve ser educada para “aprender a aprender”, coisa que nem sempre acontece na sua formação doméstica e formal, tampouco nas religiões, cabendo às Escolas de Filosofia cumprir este papel libertador.

A “arte do pensar”
 
 “Idéias não são meras informações, são percepções e, portanto, também experiências...”
 
Aquilo que dificulta o acesso ao saber verdadeiro são as crenças, as superstições e os preconceitos, comumente semeados na mente das pessoas, não-habituadas ao exercício da reflexão. A imensa maioria, nada mais faz do que reproduzir idéias externas, sem entender que isto não é conhecimento, mas mera reprodução de idéias alheias ou até, como geralmente ocorre, da própria mass media, de consensos comuns, modismos, etc.
 
Sócrates propôs um método para se ter acesso ao conhecimento real, aquele que nasce da própria pessoa, através da reflexão e da intuição das coisas. Representa isto um dos recursos tradicionais do saber: “Os meios de conhecimento ou de chegar à verdade, segundo a filosofia sânkhyayoga, são três: 1) a percepção direta por meio dos sentidos; 2) a inferência ou dedução, e 3) a autoridade, revelação ou experiência alheia.” (Glossário Teosófico”, Helena P. Blavatsky) A maiêutica emprega basicamente a segunda forma listada, como uma espécie de “caminho do meio” entre a pesquisa própria (coisa dificil de fazer e a que muito poucos se dedicam) e a informação pronta (que pouca gente aprecia ou que seria de menor utilidade).
 
A Maiêutica tem como significado "dar a luz", no sentido intelectual, e o nome se inspira na profissão da mãe de Sócrates, que era parteira, como esclarece no famoso Teeteto nos “Diálogos” de Platão, quem fazia amplo uso de imagens, metáforas e analogias em suas explanações.
 
Ora, a imagem da “luz” no parto, possui íntima vinculação com o valor das idéias, cuja percepção é como uma criação, um nascimento, uma revelação, enfim, uma iluminação... Quando representamos a “idéia” através de uma lâmpada, isto não é casual: conhecimento é luz! São luzes de verdades inerentes, como diria Platão, mais que os meros reflexos fácticos de Aristóteles, de valor meramente jornalístico ou judicial. Platão acreditava no poder inato das idéias, e Sócrates teria os meios para despertá-lo.
 
O conhecimento verdadeiro existe para nos mostrar algo, que depois passamos a perceber por nós mesmos, sem necessidade da crença exterior, como uma experiência adquirida ou uma conquista permanente, pelo despertar para alguma realidade. Ou seja, o bom conhecimento é aquele que, como diz o ditado, “mata a cobra e mostra o pau”. O resto são dogmas, informações e suposições.
 
Aquilo que não pode ser provado e nem percebido, pode se apresentado e formulado, mas não merece ser alvo de debate ou discussão. Deve permanecer como hipótese, informação, postulado ou até como crença. Aquilo que é realmente importante para nós, mais cedo ou mais tarde teremos a oportunidade de comprovar –ao menos para o nosso próprio íntimo! A ânsia pelo conhecimento nem sempre é recompensador, se aquilo que realmente buscamos é apenas informação. A especulação vã apenas irá nos levar a caminhos tortuosos e equivocados. O caminho da revelação é o próprio serviço, pois através dele vem o amor e o mérito. Através disto, aquilo que tiver que ser conhecido, o será. Sabereis de vossas reencarnações, privareis com os mestres, conhecereis os mistérios...
 
O método
 
“Conhecer caminhos é importante, mas aprender a caminhar é o mais fundamental.”
 
Este “parto das idéias” concebido por Sócrates, ocorria em dois momentos principais. Primeiro, o interlocutor era levado a questionar o seu próprio “conhecimento” (ou preconceitos, opiniões, etc.) com a aplicação de uma ironia discreta; e em seguida Sócrates o levava a conceber, por si mesmo, uma nova idéia. Para Platão, esta era uma forma de "deixar o mundo da opinião e alcançar a ciência", através de uma limpeza mental que permite fazer aflorar a intuição.
 
Platão era um “idealista”, no sentido filosófico do termo também, onde o mundo era fruto das “idéias” arquetipais. Por isto, nada teria mais valor para ele, do que despertar nas pessoas esta capacidade de conceber a Verdade e de acessar as fontes da percepção. Daí ter visto em Sócrates esta fonte tão grande de sabedoria até a mais completa abnegação de si, fazendo da própria morte mais um grande ensinamento (em “Fédon”, de Platão), em termos que evocam as palavras de Krishna no Bhagavad Gita sobre a imortalidade.
 
A intuição é uma das atividades do espírito relacionada às coisas da Nova Era, quando devemos tratar de despertar as energias do coração. É a reflexão ativada pelo sentir, pelo captar e pela conexão interna, sob a sugestão ou a insinuação de alguém ou da própria imaginação e intuição. Na obra ”Educação na Nova Era”, Alice A. Bailey afirma que a didática da Nova Era estará baseada na “insinuação”, da sugestão sutil de uma idéia ou ensinamento, de modo a que o carma interno faça o resto. Este é um meio filosófico, por isto também declara que a educação substituirá a palavra “iniciação”, o que remete ao conceito de educação permanente praticado nas sociedades da Idade de Ouro. Muitos recursos podem ser usados na maiêutica. As analogias são comumente empregadas na Tradição. Obedecem a vários princípios científicos, de fractais, da unidade das leis em todo o universo, etc.
 
Assim, mais do que achar um caminho, cabe aprender a caminhar, pois através disto o caminho estará assegurado -e da melhor forma possível: libertadora, como deve ser toda a jornada. O contrário nem sempre oferece tal garantia. Ensinamentos confiáveis são todos aqueles que libertam o ser humano, professados através do equilíbrio das coisas. Que não o prendem a um sistema de crenças, antes se oferece como um meio para alcançar um fim maior, como o Budismo alça fazer, por exemplo, ao comparar o dharma a um barco destinado a conduzir até a outra margem do rio. Que aprimoram as faculdades humanas, e não as condicionam através de idéias fechadas.
 
Busquemos, pois, as veras vias de libertação do espírito!


4 comentários:

  1. A raiva ou fúria de Nietzsche contra Sócrates vem daquilo que o Socratismo veio introduzir, isto é, uma ruptura com a tragédia grega, pré-socrática, muito ligada à arte (principalmente a música, aos ditirambos dionisíacos por exemplo como Nietzsche diz na Origem da Tragédia e outras obras), vendo esta como uma forma de vida, não como simples representação. Lendo A República, de Platão, vemos que este expulsa os poetas da cidade, afirmando que o tipo de pensamento destes é indigno para uma república utópica como a que ele descreve, reafirmando assim que a arte não tem lugar num mundo racional. A crítica de Nietzsche evolui ao longo da sua obra, sendo efetivamente muito mais voraz quando alcançamos as obras da sua maturidade como o Crepúsculo do Ídolos, pois nas obras da sua juventude, Nietzsche utiliza ainda o racionalismo como forma de expôr as idéias

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  2. Nos achamos diante de uma sabedoria trágico-ironica mais propriamente dita, de um daqueles sarcasmos que parece enviado á terra por alguma divindade com pressade reparar algo gigantesco que saiu dos trilhos e está atrapalhando a evolução de toda a espécie. E com base em um instinto artísitco, pelo bem de uma cultura, de um nobre conceito de cultura tão elevado que parece nunca ter tido lugar em toda história humana, pelas suas exigencias sobre humanas e limites impostos á importancia da ciencia e á primazia do método sobre esta... contra ela e em nome da vida como valor supremo e ilimitado éque este pensamento se levanta. Nietzsche foi o arquimago de um mistiscismo mais corajoso do que aquele que estamo acostumados a ver merecendo este nome,que recusa a fuga do mundo em nome de uma permanencia e irupção anti-racionalista no seio da vida, aceitando desta toda sua falsidade,dureza e crueldade de peito aberto e sob os auspícios de uma divindade (alter-ego heróico,nagual ou animal de poder) interlocutora privilegiada, a quem deu o o nome de Dioniso.

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  3. O nome do deus ébrio aparece pela primeira vez em sua obra ''A ORIGEM DA TRAGÉDIA'', escrito místico-estético de juventude. O dionísiaco é entendido por este sábio precoce como um estado psicológico e artístico. Neste escrito encontramos pela primeira vez a noção de 'homem teorico'' e é assumida uma posição de batalha contra Sócrates, protótipo do homem teorico. Contra Sócrates o depreciador da energia vital, o glorificador do racionalismo, inimigo de Dioníso e assassino do espírito heróico da Tragédia Grega. Segundo Nietzsche, dele deriva essa pálida cultura científica e alexandrina de nosso tempo: pálida, anemica, acadêmica, ; alheia ao MITO e á VIDA; uma cultura na qual venceu o otimismo fácil que nasce da fé na razão, no utilitasmo teórico dos''frutos colhidos'' em laboratórios e salas mofadas; na democracia fajuta e ilegítima na qual vivemos que nada mais é do que um sintoma de decadencia dos tempos e cansaço fisiológico de nossa espécie.
    O homem desta cultura socrática e anti-trágica, o homem teoríco, debilitado pelo conforto de um otimismo fácil, pueril e injustificado, não pode mais ir adiante... O jovem Nietzsche está convencido de que o tempo socrático acabou. Uma nova raça, heróica, intrépida, carregada de desprezo por todas as doutrinas que predicam esse tipo de debilidade infra-consciente, está entrando em cena. E um despertar paulatino e de ''facto'' do espírito dionisíaco se pode comprovar em nosso mundo, dos tempos de Nietzsche até o presente mais imediato.

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  4. Na segunda das''Considerações Intempestivas'', que leva por título: 'Da utilidade e das desvantagens da história para a vida'',se encerra em toda sua plenitude, ainda que sob uma roupagem crítica, esse pensamento fundamental de sua vida, do qual já falamos acima. Esse admirável ensaio é no fundo uma grandiosa variação do tema de HAMLET de que ''AS VÍVIDASCORES DA DECISÃO SÃO ESGOTADAS PELA PALIDEZ DO PENSAMENTO''
    O título não é apropriado, já que pouco se fala da utilidade da história e muito sobre suas desvantagens para a vida, esteticamente justificada, amada esagrada. Ao século XIX se chamou o século da história e na verdade é o primeiro a produzir e desenvolver o sentido histórico, do qual as antigas culturas, enuanto sistemas de vida artisticamente coerentes e fechados, pouco ou quase nada sabiam. Nietzsche fala mais precisamente da''enfermidade histórica'', que mata a espontaneidade da vida. A cultura é hoje uma cultura histórica, nos diz o sábio alemão. Mas os gregos não tiveram nada disso e, no entanto, quem se atrevaria achama´los de incultos ou ignorantes? A história praticada apenas com interesse no conhecimento, sem nenhum fim para a vida, e sem nenhum ''talento plástico' para remedia-la da decadencia que essa ausencia produz como sintoma, é algo criminoso, mortífero. Um fenômeno histórico, uma vez que já foi conhecido por completo, está morto. Paraque a história seja criadora de uma autêntica cultura,deveriaser tratadacomo uma obra de arte e não como uma fóssil ou uma rã a ser dissecada numa autópisia. O que não acontece em função da natureza decadente, analítica e anti-artística de nosso tempo. A história expulsa os instintos. Um homem por ela formado, ou por ela deformado, já não logra mais obrar criativamente dando redeas soltas ao seu alter-ego heróico (nagual ou animal divino), poisa história tem em baixíssima conta o FUTURO, osFEITOS e FATOS novos que entram na inter-zona do SER, a história paraliza toda a AÇÃO, ação que é sempre irreverente diante da antiga ordem. NIETZSCHE PROCLAMA O A-HISTÓRICO: a ARTE e o poder de reverenciar um PROGRAMA DE VIDA fechado em si mesmo, á prova de balas contra as rajadas de metralhadora do racionalismo analítico e decadente de nosso tempo. É de um modo muito belo emuito nobre que Nietzsche assume seu desejo pelo SUPRA-HISTÓRICO, que aparta a vista do contexto histórico para pousa-la com um metálico olhar de bronze naquilo que dá á existência humana seu caráter de ETERNIDADE e de PERMANÊNCIA: a ARTE e a RELIGIÃO.
    Nietzsche quer e anuncia um tempo (uma IDADE DE OURO) que de modo a-histórico e supra-histórico se absterá de todas as construções do processo mundial e da história da humanidade, na qual não se levará em conta nenhuma cultura de massas, mas apenas os diálogos arquetípicos das grandes vozes que continuam sendo gravadas em caracteres de ouro num infinito rolo de papel cósmico que segue sendo desenrolado por cima de todo rebuliço decadente da história. Há aqui um desesperado culto estético da genialidade e do heroísmo que ele se viu obrgadoatomar emprestado á Schopenhauer. A transformação nietzscheana deste conceito ao uni-lo com sua adoração pela vida, forte e bela, produz como resultado um esteticismo heróico,do qual faz patrono-protetor o deus do êxtase Dioniso... deus do êxtase e da Tragédia!! É precisamente este esteticismo dionisíaco que fará do último Nietzsche o maior crítico e psicólogo da moral que a história do espírito humano conheceu até hoje.

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