“Apenas os pequenos segredos precisam ser guardados, os grandes ninguém acredita” (H. Marshall)

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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

TRADIÇÃO PRIMORDIAL & SABEDORIA PERENE


Templo de Luxor, Egito, reconstituição digital

Quando ouvimos falar de uma “Tradição Primordial”, vem comumente a idéia de algo que aconteceu há muito tempo, nas “origens” ou nas fundações culturais ou civilizatórias remotas.
De fato, esta também é uma realidade, uma civilização apenas se estabelece através de uma cultura unificada, universalista, onde as coisas superam conflitos e dualidades, prevalecendo a integração e a unidade.
Pois “Civilização é a superação dos guetos ideológicos,” diziam os Antigos. A Civilização original da Idade de Ouro se define como um estado-de-paz e de concórdia. Egito, Índia, China, Américas... viveram mil anos de paz nas suas áureas fundações.


A conquista da PAX



Segundo o padrão, a Idade de Ouro (sacerdotal, holística, mítica) corresponde à etapa inicial das civilizações –às vezes após um período crítico de organização-, podendo perdurar por mil anos sem muitas dificuldades, já que traz tantas novidades, pureza e encantos para a humanidade. Foi o Antigo Império no Egito e o a Civilização Sumeriana, as Dinastias Míticas da Chinas e a avançada Civilização do Indus na Índia, o ciclo fundador de Caral no Peru e o período Teotihuakano no México, etc. Depois segue uma época mais guerreira (aristocrática, heróica), porém ainda virtuosa.
Estes são os milênios-de-paz das Fundações áureas:
Antigo Império, Egito: 3200 a.C. – 2100 a. C.
Civilização Sumeriana: 3500 a.C. – 2000 a.C.
Dinastias Míticas (Xia e Shang), China: 2205 a.C. - 1050 a.C.
Civilização do Indus, Índia: 2500 a.C. - 1750 a.C.
Caral, no Peru: 3000 a.C. - 1800 a.C.
Período Teotihuakano, México: 100 a.C. - 800 d.C.


A unificação do Egito sob Menés antecedeu este período áureo e o preparou, onde havia tanta paz e fartura que permitiu a construção das grandes pirâmides. Gilgamesh foi um legislador quase mítico, a escrita cuneiforme foi criada para registrar as finanças; haver algumas guerras (de que teor?) não depõe contra uma grande civilização fundadora capaz de alta cultura, criação de zigurats, palácios, elevado urbanismo, etc. -e tudo isto, o que é muito importante, sem escravidão. Os historiadores costumam reconhecer até mesmo a Pax Romana, não obstante ser imperialista e escravagista. 
Havia um colonialismo cultural e econômico nas periferias imediatas das Sociedades Antigas, porém sempre de baixo teor militarista (e mais propriamente pacificador), durante estes períodos mais ricos culturalmente. Os intercâmbios com os núbios no sul foi tão complexo, que passados alguns séculos eles dominaram todo o Egito e até erigiram algumas dinastias imperiais, através da Civilização do Kush. 

Caral, Peru: “mil anos de paz”

O teor da disseminação cultural é notória na civilização de Teotihuakan, e no caso de Caral, onde nada se encontrou de armas, se atribui a paz apenas à força do comércio, embora seja lógico e evidente o esplendor cultural que representou para a época e para a região –coisa comum a todas as autênticas civilizações fundadoras. Caral era uma “cidade sagrada”, como foram muitas na Antiguidade, mas isto não as exime de conflitos ideológicos ou religiosos.
As sociedades teocráticas que caracterizam as fundações das civilizações também estão sujeitas às dinâmicas humanas, ainda que ostentem baixo teor de materialismo. O fato de serem propositivas e idealistas é suficiente para produzir dinâmicas; a construção de templos e pirâmides demanda uma estrutura social e econômica complexa.
Sabidamente, o proselitismo religioso e o imperialismo econômico não são marcas das sociedades teocráticas e monarquistas, mais caracterizadas pelas Religiões-de-Estado como são. O importante aqui é promover a intenção da paz, através da isenção do desejo de opressão cultural e de exploração social. 
O importante aqui é promover a intenção da paz, através da isenção do desejo de opressão cultural e de exploração social.

Apenas não exigimos da Historiologia Estrutural com que trabalha a Filosofia Perene, maior exatidão do que existe entre os Historiadores em geral, os Estatísticos ou os Meteorologistas físicos, assim como no conjunto das Ciências, sobretudo as que tratam de temas complexos como são os humanos, mas talvez mesmo nas Ciências Exatas vistas com o devido rigor. Não se deve ser ingênuo julgando que as coisas são “ou pretas ou brancas”. E descartemos a priori todos os sistemas e “astrologias” não-científicos ou excessivamente mistificados pelos véus apostos pelo tempo.


Ao lado da teocracia, o regime social comumente empregado era a Sinarquia ou “governo conjunto”, onde todos os setores sociais co-governam simultaneamente, e sem disputas ideológicas. Pois todos consensuavam que a Paz e o Equilíbrio são os valores mais importantes, e nisto deve haver espaço para a diversidade e para o bem-estar de todos.
Mas, tudo neste mundo também está sujeito a ciclos. Existe com efeito, no progresso cultural, um decréscimo de energias (registrado através das “Idades do Mundo”), porém, o sentido do termo “Primordial” também é axiológico e qualitativo, e pode-se de algum modo preservar o seu espírito de forma concomitante, uma vez que ele se recicla e preserva, por isto se designa mais comumente esta filosofia de “Sabedoria Perene”, ou Sanat Dharma como se denomina o Hinduísmo na Índia, visando acima de tudo preservar, na medida do possível, aquela dimensão de integridade entrevista nas “origens” áureas das Civilizações. É por esta razão que o perenialista termina por se revelar um verdadeiro viajante do tempo - além de serem, é claro, "Mensageiros da Eternidade".

“Das Origens”


Aquilo que caracteriza a Tradição Primordial, é o seu caráter unificador e original das coisas. Ela é “primordial”, não somente no sentido temporal ou cronológico, embora também o seja, da implantação de um modelo ideal de fazer cultura, mas também em termos qualificadores, de princípios ou de valores, de origem ou de raízes, de fonte ou de unificação, como a luz branca antes de se refratar nas cores ou, analogamente, como ao se falar do ápice de uma pirâmide.

Daí os mitos dos "continentes brancos" das Origens, como a Sweta Dwïpa dos hindus e a Albion ou Avalon dos celtas cristianizados, ou mesmo a Clareón dos hyperbóreos, mas que tampouco deixa de ter direta associação com a “Terra Pura” dos budistas, a “terra-sem-males” dos guaranis e a “Terra-do-Meio” dos chineses (e outros) como símbolo do “equilíbrio criador”, de “umbigo do mundo” (fonte, cultura-matriz) como a Cuzco incaica e assim por diante. Donde os mitos agarthinos em geral de uma “terra central”, que uns colocam no centro dos continentes-dharmas (como fazem os tibetanos), e outros dispõe no próprio interior do planeta... afinal, “assim como em cima é em baixo” e assim como é dentro também é fora.
Este caráter primordial também se define, pois, marcadamente pela sua unificação. Tal como é a unidade institucional na Idade de Ouro das Civilizações, onde as diferentes disciplinas diferem apenas na sua função, já que todos os “Sete Raios” da Cultura são necessários na ordem humana comum: política, filosofia, arte, educação, ciência, religião e economia.
Por esta razão, é que nesta esfera original não há mais do que um representante e nem mais do que um caminho. Há muitos caminhos para começar a se aproximar de uma montanha, podemos realmente vir de quase todos os lados; no começo da subida, também existem algumas vias; mas lá no ápice, onde tão raros alcançam, somente resta uma Única senda...


Imagina-se muitas vezes, como vimos, que esta “primordialidade” seja apenas cronológica. Obviamente, não se trata apenas disto, e nem seria este o seu aspecto principal. Pois a Tradição Primordial mantém Prepostos através de toda a evolução planetária, ainda que mais ou menos ocultos aos olhos do mundo, já que a sua metodologia não é imiscuir-se diretamente nos assuntos humanos, mas sim instruir através do exemplo e da palavra. De toda maneira, as Idades maiores da humanidade, que são as de Ouro e de Prata, apenas se edificam sobre a orientação viva dada diretamente pelos Adeptos de Sabedoria.
Estes Prepostos são os representantes da Tradição Primordial –além dos Avatares, é claro, os quais não obstante raramente vem à Terra-, são criaturas de vida ilibada, renunciantes que se dedicam a vida inteira e exclusivamente à busca da Verdade e a conhecer a Unidade das coisas. Por isto eles tornam-se os custódios máximos e abalizados da Tradição Perene.



“As Artes Liberais”, Robert Fludd

Estes possuem ademais o dom, a tarefa e a vocação de alcançar os cumes da auto-realização, onde se dá o encontro com Deus. Como disse Helena P. Blavatsky, a deidade ou Sanat Kumara é contatado por todo iniciado de terceiro grau, para conhecê-Lo e para receber o toque do Centro de diamante do "Iniciador Único".
Aquele que sobe a montanha, é recompensado com a visão d’Aquele que mora na montanha -como fez Moisés ao encontrar Deus no Monte Horeb. Esta é uma “recompensa natural” desta etapa de culminação da senda, preparando para as etapas seguintes. A partir dali, o buscador pode optar entre três caminhos -pois esta ainda é uma iniciação terciária-, e o Encontro divino de certa forma ajuda a selar esta opção, ou seja:


a. retornando, ele pode se tornar um instrutor experiente;
a. permanecendo, ele pode virar um asceta respeitável; e
c. avançando, ele se predispõe a ser um arhat glorioso.

Os verdadeiros Adeptos realizam invariavelmente a terceira opção, enfrentando daí todos os desafios da condição humana - e ainda além!
“O Cérebro Integral”, R. Fludd
E como tal, alcançam representar perfeitamente o conceito do Governo Oculto ou Paralelo do Mundo, por atuarem desta forma “nos bastidores”, por assim dizer, em busca da Sabedoria superior e logo na sua irradiação, com foco na iluminação do mundo, sem imiscuir-se nos negócios terrenos, porém tratando de orientá-los concomitantemente. Ele são os super-profissionais da sabedoria e do conhecimento unificado - ver também o nosso artigo “Ketub – o eixo espiritual do Mundo”.
Esta Tradição Primordial está além do tempo e além do espaço, mas ao mesmo tempo está focalizada nestas mesmas “dimensões”, para demarcar onde é o foco da evolução espiritual humana e da revelação divina em cada época do mundo. Para a Loja Branca, vale sempre as palavras do Cristo: “o meu reino não é deste mundo”, ao menos enquanto perdurar a humana evolução.
Como encontrar então esta via ou como saber onde ela está representada? Vários fatores podem ser arrolados nesta investigação. Existe, por exemplo, a citada questão pontual de tempo-espaço, o lugar de onde o dharma ou a lei espiritual é originalmente emanado e até se mantém com maior pureza, em função da proximidade ao fator-de-revelação e pela própria seqüência apostólica que tende a ali se fixar. Também cabe observar o próprio teor da informação ou da revelação, seguindo a premissa de que “a revelação revela o revelador”!
Com o tempo, a informação é digerida, processada, assimilada, e na sequência ela é corrompida e deturpada. Porém, no seu frescor original, ela é uma força criadora, porque advém de uma energia original.
A suma tarefa de renovação do mundo ou de refundação das raças, apenas se faz através do reencantamento do Mundo, pois é isto que pode dar um sentido novo às coisas e lançar a humanidade numa nova aventura-do-conhecimento... 

É isto unicamente que detém o poder mágico de recriação das coisas, capaz de forjar a Idade de Ouro fundadora de Paz e Cultura universal, sob a unidade de Arte, Ciência e Filosofia, como na Bandeira de Paz-Cultura do Pacto Roerich. Há que contar sempre, pois, com o aval e a orientação destes artífices divinos, arautos de uma nova ciência iluminada, uma arte esplendorosa e uma filosofia plena.
Na raça passada, a Idade Áurea se revelou ao mundo através de portentosas obras de Arquitetura –por exemplo-, demonstrando o advento de uma Ciência superior na Terra. Qual será a Face Radiosa que o Tempo Novo oculta, todavia, para se revelar ao mundo desta feita, capaz de catalizar novamente todos os corações para mil anos de paz?
Talvez –e é muito provável isto-, este novo momento racial-civilizatório já não aspire tanto pela exteriorização da forma racional, ainda que setores sigam investindo no aprimoramento técnico e mecânico exterior. É possível que, para muitos, o único futuro possível implique num certo regresso à Natureza, almejando assim um dado ideal arcadiano de harmonia entre a Natureza e a Civilização, não como no ideal atlante de possuir unicamente os templos edificados em pedra e o restante da vida humana se assentar em aldeias humildes, mas ao menos que as cidades sejam pequenas doravante e, assim sendo, também trabalhadas com a função de desenvolver aqueles aspectos mais puros e elevados da existência, em todos os seus planos de expressão. As velhas cidades enfermas serão os ambientes do Caos Primordial, nos quais serão projetadas novas luzes para deles retirar uma Nova Ordem iluminada alhures, coisa esta que anda certamente embutida em muitos antigos mitos e profecias...

Uma constelação de pequenas cidades com pessoas afins!
Eis o sonho arcadiano da Nova Civilização cósmica
De humanos livres entre o Céu e a Terra
Sob a orientação das Ciências do Destino!
Almas-gêmeas e iluminação, altar e leito unificados,
Imortalidade e felicidade plena, justiça e harmonia social
de volta à humanidade redimida sob as novas luzes do Pramantha!


Auroville, Índia (maquete)

Estas novas cidades da luz obedecerão a um urbanismo e a uma arquitetura específicos, terão a sua população delimitada e um perfeito equilíbrio entre campo e cidade. E serão como laboratórios vivos para uma Nova Civilização.
Obviamente, toda esta gigantesca tarefa de recriação do homem e da cultura, se faz basicamente através da educação, ou a partir da Educação Integral, permanente e vitalícia, e através de ambientes especialmente destinados a tal, para que todos os temas da vida sejam incorporados num Plano Novo e de perfeição, por assim dizer. Os sublimes demiurgos do Homem Novo, detém todos os passos para esta incomparável tarefa, pois eles já a tem realizado em si e ainda além...

“O Uno e o Todo”

Por esta razão, tal “Sabedoria das Idades” tampouco representa um ethos passivo, convenção anacrônica e atávica, mero costume ou hábito: é antes um Princípio ou um conjunto deles, vividamente mantidos, não por preconceitos ou por interesses menores, mas pela própria luz do Espírito.
Assim, o “Perene” desta Filosofia, não se refere ao “estático” -talvez ao estável apenas-, porque de uma forma ou de outra, todo o estático sucumbe no Universo. É perene porque sabe justamente se transformar e adaptar, seguindo as próprias diretrizes da vida, sobre balizas universais que asseguram o equilíbrio do Todo, hoje em dia também chamado de “Holístico”. 

Costuma-se definir este eixo através de Trindades divinas. O símbolo chinês wang, ao lado, tema central da obra de René Guenón intitulada “A Grande Tríade”, significa “homem universal”, e mostra um eixo que une céu, homem e terra, o que podemos definir como espiritualidade, fraternidade e ecologia, fazendo alusão pois ao humano perfeito.
A Filosofia Holística, hoje tão em voga, e cada vez mais presente na Ciência através da interdisciplinaridade e da transversalidade, não chega a ser nenhuma novidade na história do pensamento humano, pois a Filosofia Perene das eras primordiais trata diretamente desta questão.
O que temos é basicamente uma roupagem nova para o mesmo tema, não obstante a pesquisa sobre estes antigos saberes e estilo de fazer cultura, poder nortear como nada mais esta aspiração da civilização emergente.
Cabe para isto em contrapartida, não apenas sintetizar e fazer avançar as informações das filosofias e doutrinas esotéricas, como também aproximá-las das Ciências como senso comum pragmático, buscando uma autêntica transdisciplinaridade.
A Filosofia Perene é universalista e ecumênica, possuindo um espírito e um estilo próprio, que é clássico, equitativo, sereno e abrangente, que preserva um equilíbrio justo entre Ciência e Filosofia. Norteia-se sempre pela Busca da Verdade, pautada pelo Bem, o Bom e o Belo.
Buscar compreender e resgatar o Espírito Tradicional, trazendo-o novamente à sua plenitude, representa indubitavelmente o mais saudável dos desafios! Esta é a grande marca das Idades de Ouro, a qual já cabe tratar de preparar para a humanidade que emerge na Nova Era, pois consideramos participar de uma conjuntura espaço-temporal muito adequada para empreender esta nobre tarefa. Este é o grande propósito da Filosofia Perene em todos os tempos, ou seja: não meramente reportar-nos ao passado ilustre da humanidade, mas antes construir o seu futuro ideal!


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A Geografia das Origens


* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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