Ao analisarmos o Ashtanga
Yoga de Patanjali, ou a Ioga de Oito Partes, vemos que existem ali uma
série de preparações para a meditação, incluindo uma sequência prévia de
disposições mentais como abstração e concentração. Toda esta preparação é
realmente útil para a colheita dos frutos da meditação. E para aquele que está
bem preparado, todas as etapas já podem representar formas de meditação.
Em termos gerais e objetivos, as práticas tendem a se resumir ao Yoga físico e à Meditação, agregando eventualmente outras práticas no seu entorno. É comum assim que a prática meditativa tenha suas etapas. Muitas vezes o pranayama é usado como introdução, para fins de relaxamento e de concentração, seguindo-se então algum tipo de meditação, que pode usar também formas e direcionamento.
Técnicas e
polaridades
Muitas vezes estas
duas práticas principais que são o yoga e a meditação, são realizadas em
momentos distintos do dia, por soar o primeiro como mais solar e positivo, e o
último como algo mais lunar e negativo. Esta estrutura está muito presente nos
ashrams da Índia ou em templos orientalistas, por exemplo. Tenho na memória
estas experiências de quando vivi em ashrams. Por longo tempo a meditação
sentada noturna foi exclusivamente usada para praticar a busca da Presença
interna, numa saborosa experiência de atemporalidade. E o conjunto dos iogas
físicos por sua vez, com destaque para os Ekapadas (posições de pé), eram
destinados a trabalhar com as energias mais objetivamente, especialmente por
orientação interna nossa.
Naturalmente isso
tampouco esgota as atividades necessária; estudos e ritos também se faziam
presentes e sempre são importantes. Sigamos porém com as polaridades em
questão.
Quando evocamos o
Sol estamos normalmente tratando também da dimensão intelectual ou mental. Há
práticas de meditação que fazem um uso positivo ou criativo da mente. Isto é
diferente pois daquelas práticas mais contemplativas -portanto de caráter
lunar- que almejam deter a mente para alcançar o contato do Ser ou do próprio
coração; ainda que práticas mentais criativas também possam trabalhar energias
semelhantes. Esta dialética está representada de muitas formas no yoga, a
partir do seu próprio simbolismo - o Shiva Lingam por exemplo, que na verdade é
Lingam Yoni, ambas as polaridades. O mais famoso mantra tibetano exalta o mesmo
nas formas Mani ou jóia e Padma ou lótus, já fazendo uma nítida alusão a certos
chakras superiores.
O assunto também
merece aqui uma observação. Acontece que os termos ioga e meditação são muito
fluídos e intercambiáveis. Além disto o assunto das posturas comporta
polêmicas. Não queremos de nenhum modo desprezar as tantas posições do Hatha
Yoga, mas existem dúvidas quanto à sua verdadeira antiguidade ou tradição. Um
dos supostos riscos do Hatha-Yoga seria induzir ou estimular os chakras
inferiores. A nosso ver porém cabe apenas dosar e relativizar o papel de certas
práticas. Qualquer meditação pode oferecer perigos se for mal conduzida,
independentemente das posturas adotadas. Hatha costuma ser associada à saúde
física, porém sequer a saúde representa um fim em si mesma.
Para certos
estudiosos a menção à postura nos tratados antigos era simplesmente sentar numa
posição adequada, mais ou menos como o Budismo geralmente demonstra em relação
aos Budas e Bodhisatwas. Também é comum achar estas entidades de pé, e aqui
teríamos então a principal dualidade postural existente. Ou seja: sentado ou de
pé com poucas variações, ainda que a gestualística das mãos (que são os mudras)
permaneça rica e variada.
Aqui devemos notar
então que as posturas de pé prestam-se muito para as chamadas deidades iradas e
outras atividades que envolvem fogo ou grande energia, como é o caso de Shiva
Nararaja. Temos inclusive sugerido que Maitreya emprega comumente posturas
distintas de Gautama por representar o Buda de uma era positiva.
Assim, cada prática
pode ser útil para desenvolver uma dada polaridade de energias. Oportunamente
quando estas energias estiverem suficientemente desenvolvidas, o praticante
poderá ensaiar também a sua fusão. De todo modo esta dialética pode ser
complexa; podendo incorporar novas técnicas e avançar nas sínteses.
Nada disto resulta portanto em regras rígidas. Mesmo posturas sentadas podem agregar práticas positivas. O ioga egípcio trabalha apenas posturas de pé que adotam variações sutis, alternando as polaridades das práticas. Na verdade até mesmo deitado tudo isto pode ser realizado, se houver suficiente disciplina e determinação, e quando as condições do corpo já não oferecem muitas outras possibilidades. Aqui podemos recordar que os processos de meditação e de cura espiritual também podem ser muito próximos entre si.
Mente & Coração
A conexão e a
complementaridade entre mente e coração representa algo muito tradicional e
presente em toda a iconografia sagrada. E isto por si só já representa uma
alusão didática sobre os centros mais seguros e importantes para serem
trabalhados.
Comumente os santos
possuem auras ou halos na cabeça e no coração conjuntamente. A conexão
esotérica acontece neste caso através do chakra coronário, o qual também possui
uma subdivisão menor de doze pétalas análogas às do coração.
No homem comum
estas coisas andam separadas aparentemente, produzindo conflitos e confusão. Já
no sábio cada vez mais estas polaridades buscam se harmonizar e comunicar entre
si.
Lamentavelmente a
realidade da jóia é notoriamente subvalorizada na hermenêutica budista, em
contrapartida com o lótus bem melhor compreendido. Com isto as pessoas passaram
a confundir o Vazio com a iluminação, quando na realidade não passa de um
esclarecimento sobre a vacuidade das coisas. Daí a necessidade do verdadeiro
entendimento que também está simbolizado pela jóia, além de representar o
conjunto das energias positivas da espiritualidade. Por isto a iconografia da
jóia também é rica e eloquente, especialmente quando associada a Vajra. No caso
de Cintamani a jóia é até mesmo plural, e sua presença no corcel sagrado
significa a iluminação da mente e o poder iluminador da mente. O próprio
símbolo popular do Lung-ta ou cavalo-de-vento traz alusões ao Elemento Ar
mental. Como trata-se de uma energia positiva envolve maior dinamismo e
criatividade, algo incomum numa era negativa e contemplativa como a de Peixes -
mas que necessita ser revertido em prol da nova era que chega.
Geralmente se
associa o coração ao amor e à compaixão, e a mente à luz e à imaginação. Porém
existe um terceiro princípio capital aqui que muitas vezes fica apenas
subentendido que é o papel do mantra como dinamizador destas energias. Não
casualmente no mantra de compaixão OM MANI PADME HUM, mente e coração estão
cercados por bijas poderosos - e também polarizados eles mesmos se se quiser,
interna ou reciprocamente, numa indicação do verdadeiro destino comum das
energias da mente e do coração. O mantra comumente é visto como upadhi,
veículo, mas por sua importância ele também adquire um papel e um protagonismo
próprio.
O Budismo trabalha com duas grandezas: vastidão e profundidade, singelamente presentes no símbolo da cruz. Naturalmente relacionam-se à mente e à coração de forma respectiva. Um símbolo muito próprio também destas realidades é a dupla imagem de Chenrezig, a sentada contemplativa e a de pé (como Lokeswara) criadora.
O caminho gradual
Geralmente se
imagina ser possível reunir ambos os princípios numa só prática, mas esta é uma
ideia apenas relativa. Pois cada princípio trata-se também de um universo
próprio que precisa ser desenvolvido de forma mais ou menos autônoma, antes que
possam realmente unificar-se, o que acontece somente na iluminação. Por si só
esta dualidade pode resultar em símbolos complementares como o solve et coagula
da alquimia, o cálice e a hóstia do cristianismo, ou a joia e o lótus do
budismo. O símbolo yab-yum macho-fêmea do Budismo Tibetano remete à técnica e à
sabedoria, podendo da mesma forma atender a estas polaridades.
A meditação de
polaridade positiva vai do centro para a periferia, sendo assim uma prática
solar irradiante que atua a partir da mente e passa pelo coração. A meditação
de polaridade negativa vai da periferia para o centro, sendo assim uma prática
lunar concentrada que atua a partir do coração e passa pela mente.
Muitas tradições
ilustram esta progressão. No símbolo do Tao, por exemplo, temos as polaridades
extremas na sua periferia, logo elas se mostram em equilíbrio mais ao centro,
até chegar no núcleo absoluto que é o eixo do emblema do Tao onde tudo está
unificado.
Todo este sistema
já resulta pois bastante didático. Mesmo assim prudência e persistência são
sempre regras fundamentais.
Conheça também @editorial_agartha e Canal Agartha wTV
Conheça “A Nova Dispensação de Luz da Hierarquia”
Para acessar as Obras da Nova Dispensação clique Aqui. Os conteúdos em formato e-book são disponibilizados gratuitamente.
https://agartha-edicoes.blogspot.com
ou
www.agartha.com.br
Sobre o Autor
Luís A. W. Salvi (LAWS) é estudioso dos Mistérios Antigos há mais de 50 anos. Especialista nas Filosofias do Tempo e no Esoterismo Prático, desenvolve trabalhos também nas áreas do Perenialismo, da Psicologia Profunda, da Antropologia Esotérica, da Sociologia Holística e outros. Tem publicado já dezenas de obras pelo Editorial Agartha, além de manter o Canal Agartha wTV.















.jpg)
