Para aquele que vive em nossos tempos atuais, pensar numa cultura ágrafa representa um desafio considerável, situando-se quase além da nossa imaginação. Quase esquecemos que grande parte da literatura que provém da Antiguidade tinha natureza oral, e que somente muito mais tarde é que recebeu uma ou mais versões escritas. Acostumados como estamos amplamente com os estudos, ficamos a nos perguntar como eram os estudos então e como as pessoas faziam para aprender.
Aqui devemos lembrar que a transmissão oral era muito rica, contando com diferentes categorias de instrutores. Além da educação doméstica, havia os contadores de histórias, que muitas vezes eram os próprios xamãs ou ou sacerdotes. Depois, a forma do conhecimento também era diferente. Havia muito conhecimento mágico e as analogias (chamadas “assinaturas”) eram muito valorizadas.
A cultura oral era considerada mais divertida, mais viva, mais real, e naturalmente mais social ou coletiva. O prazer solitário de ler um bom livro era substituído por ouvir escutar um contador de histórias. A atividade do aprendiz dos alfarrábios científicos era trocada pela reflexão sobre a natureza interna das coisas.
Ademais, podemos imaginar que o tempo era muito ocupado com questões práticas. Os ritos e as atividades lúdicas eram comuns, mas ao mesmo tempo havia os esforços pela sobrevivência, as atividades guerreiras, a educação das crianças, o artesanato, as construções e as práticas espirituais de diferentes naturezas, entre outras questões do cotidiano antigo e primitivo.
Contudo, devemos buscar compreender que o registro não era buscado também voluntariamente. Ou seja: preferia-se realmente a transmissão oral, como uma forma de simplificar a vida e conferir objetividade ao saber.
Na Tradição de Sabedoria, o registro é visto muitas vezes como uma espécie de fatalidade -como Platão tratou de deixar bem claro-, útil apenas quando não existe um mestre para instruir ou quando falta um discípulo para aprender. Através do registro o aspirante sincero pode ser capaz de entrever aquilo que está oculto, afinal ele está acompanhado de forças espirituais vivas capazes de lhe orientar internamente.
Nós temos plena ciência de que a tradição gráfica também é muito poderosa e impactante, podendo ter até mesmo um importante papel fundador nas sociedades e civilizações. Ainda que muitas destas literaturas tenham as suas raízes na própria tradição oral. Não é difícil realmente surpreender-nos quanto à importância do papel da literatura na formação da cultura humana. No entanto, se a realidade pode sofrer tal impacto da ficção, é apenas porque a própria ficção também pode estar amplamente amparada na realidade. Ou naquilo que acontece para além do imaginário criativo, puro e simples.
A queda da tradição oral
Sabe-se então que os Mistérios Antigos eram basicamente comunicados por transmissão oral. Este princípio ia além da simples dificuldade teórica e prática de registro na época. Tinha antes relação com seu caráter esotérico, restrito e iniciático. Sabia-se então que somente os Iniciados tinham acesso a certas realidades espirituais. Com o tempo, porém, estas antigas informações secretas passaram a ser abertamente divulgadas, de maneira escrita e formal, até como forma de não se perder o conhecimento. E com isto, também se criou a ilusão de que aquelas informações poderiam se aplicar a todos. Este é o espírito de massas que anima boa parte da religião e da filosofia.
Até certo ponto, podemos entrever uma legitimidade esotérica nesta divulgação do Oculto, em função dos esforços de socialização dos Mistérios, dentro de um quadro social áureo no qual os Iniciados tenham efetivamente sido incorporados às instituições sociais. É aquilo que em alguns meios se conhece como Sinarquia, sendo o seu resultado, nos melhores casos, aquele de implantação das Idades de Ouro da Civilização. Não obstante, é conhecido que esta situação também tende a ser transitória. E aquilo que fica são apenas superstições sobre crenças esvaziadas pelo tempo.
Seja como for, a humanidade termina vivendo parte de seus ciclos imersas em ilusões generalistas, onde à primeira vista a religião atua realmente como um ópio popular. Eventualmente mestres e avatares promoverão reformas espirituais e depurações conceituais, restaurando as escolas de iniciação. Isto segue assim até que o materialismo da cultura de massas leve o mundo a crises maiores. Deste parto é que poderá surgir uma nova idade de ouro.
A transmissão oral é importante por diferentes motivos, tais como:
1. Atesta a individualidade da transmissão do conhecimento;
2. Permite aferir fatores técnicos com maior precisão.
3. A proteção da informação dentro de círculos mais restritos.
4. As dificuldades do registro nas épocas antigas.
Todos estes são fatores de grande relevância. Queremos destacar ainda porém a questão técnica, que é justamente aquilo que termina mais prejudicado em função da massificação da informação e da redução do saber esotérico ao nível de “filosofia” e mesmo religião.
Também cabe um comentário ao aspecto da proteção, a qual pode ter da mesma forma diferentes razões, como seriam a legitimação da informação e a segurança do emprego de recursos poderosos contra mãos inábeis.
As pessoas raramente acolhem Mestres verdadeiros nas idades materialistas. Mestres que digam que elas precisam mudar de vida, que afirmam que elas não têm chances, e que suas vidas são uma completa ilusão. Enfim, Mestres que digam a verdade sem rodeios e de forma cristalina. Elas preferem a indulgência e a ilusão, algo que lhes diga que elas têm todo o tempo do mundo e que não precisam se esforçar, ao invés de realizar as renúncias e os esforços que o caminho espiritual realmente exige.
Para os Mestres a maior das chagas são as falsas doutrinas, sobretudo aquelas que prometem uma espécie de vida eterna gratuita. Por isto Buda questionou a reencarnação e Jesus contestou a ressurreição dos mortos -das formas como elas são entendidas pelo vulgo. A humanidade adora estas fábulas, e aos poderosos convém a acomodação espiritual que delas resulta. Se a pessoa ainda tiver méritos reais ela ainda terá uma chance, do contrário será pura ilusão.
Outro exemplo. Tratar da metafísica de atma não significa que todos tenham acesso a ela, a não ser que sigam um caminho. Um dos problemas das doutrinas exotéricas está na generalização que as caracteriza. Quando a filosofia se expande mais do que a técnica temos este tipo de distorção.
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Sobre o Autor
Luís A. W. Salvi (LAWS) é estudioso dos Mistérios Antigos há mais de 50 anos. Especialista nas Filosofias do Tempo e no Esoterismo Prático, desenvolve trabalhos também nas áreas do Perenialismo, da Psicologia Profunda, da Antropologia Esotérica, da Sociologia Holística e outros. Tem publicado já dezenas de obras pelo Editorial Agartha, além de manter o Canal Agartha wTV.










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