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sábado, 18 de setembro de 2021

O Elo Perdido da Ioga

 É importante notar que, na Filosofia Tântrica do Yab-Yum (“pai-mãe” das práticas), o aspecto “Sabedoria” (ou prajna) corresponde ao Vazio (sunya) e o aspecto “Método” (meios hábeis ou upāya-kauśalyacorresponde à Compaixão (karuna). O vazio -que é um dos temas centrais da escola Budista Mahayana-, representa pois o exercício da entendimento e da percepção clara da Alma sem máculas.

Naturalmente o tema nos leva ao estágio central da Ioga Óctuple de Patânjali que é pratyahara ou a abstração dos sentidos, o qual infelizmente tem sido um dos elementos menos valorizados do sistema ioga, quase um elo perdido da espiritualidade -pese representar o grande elo de ligação entre os estágios mais físicos e os estágios mais internos da ioga. Então pratyahara não é apenas o elo do yoga, como é também um elo perdido...

Esta falta de conhecimentos sobre pratyahara contribuiu na confusão sobre a verdadeira natureza da evolução na ioga. Caso pratyahara não fosse importante Patânjali não o teria incluído na sua Ioga clássica de Oito Partes. Na verdade nem seria exagero dizer que no momento em que este pilar central está abalado, todo o edifício superior da ioga também fica prejudicado. Quer dizer: se perdem os significados e os conteúdos verdadeiros dos estágios mais avançados. Mesmo no Budismo tem-se prescrições como concentração e meditação corretas, o que tampouco deixa de soar vago, caso não haja um guru habilitado para ensinar o caminho.

Uma das grandes vantagens de sistematizações como a Ioga das Oito Partes é facilitar o discernimento dos estágios preparatórios. Já tivemos a oportunidade de demonstrar as semelhanças entre a senda óctuple do Budismo com a Ioga de Oito Partes de Patânjali –ver nosso video “Os Oito Passos da Iluminação - a Senda Oriental e os Desafios Toltecas”.

O culto budista do vazio até poderia ser considerado uma abstração ou um afastamento dos sentidos, simbolizado no Zen pela famosa técnica de “olhar para a parede”. E no entanto a ioga nos irá pedir foco, e portanto envolvimento. É possível admirar a beleza austera dos desertos -ou de um jardim zen- e nela buscar refúgio. Porém a alma se alegra bem mais num belo jardim japonês com todos os elementos naturais devidamente harmonizados. Então podemos também encontrar uma grande identidade entre o pratyahara com o exercício da contemplação. 

No Budismo Tibetano, também podemos relacionar esta prática ao Trekchö, que é a base do sistema Dzogchen ou Ati-Yoga da “Grande Perfeição”. Alguns lamas dão inclusive um elevado valor a esta prática, considerando as fortes tedências contemplativas do Budismo atual. Citemos então:

Namkhai Norbu faz uma distinção entre dzogchen ‘contemplação’ propriamente dita (Trekchö) e ‘meditação’. Segundo Norbu, a contemplação é ‘respeitar o estado não dual [ou seja, rigpa] que, por sua própria natureza, ininterruptamente auto-liberta’, enquanto a meditação é qualquer prática ‘trabalhando com a mente dualista e relativa, a fim de permitir que alguém entre no estado de contemplação’. Norbu acrescenta que todas as várias práticas meditativas encontradas nos ensinamentos de Dzogchen (como os ‘seis yogas’) são simplesmente meios para ajudar os praticantes a acessar rigpa e são, portanto, ‘secundários’.”

Vejamos pois um pouco o que consiste este que costuma ser considerado como o elo entre a parte mais física e a parte mais mental da ioga. Pratyahara significa “retração dos sentidos”, e por seu intermédio requalificamos as nossas percepções. Para isto podemos abrir-nos aos estímulos convidativos do templo na forma de luzes, sons, formas e aromas.

Podemos dizer com isto que o pratyahara representa um certo sopro de magia entremeando as técnicas da ioga. Existem duas formas de magia, uma com foco na consciência e outra embasada nas técnicas. A magia consciencial, que seria o objeto de pratyahara, é alcançada pelo entorno cativante -incluindo naturalmente as pessoas e o próprio guru-, tal pela auto-entrega da alma. A auto-investigação à maneira vedantina também pode ser empregada com sucesso para desenvolver este estágio da ioga.

Este seria pois como um momento de reverência antes de adentramos nas etapas realmente interiores da ioga, como uma espécie de reforço afetivo de Yama e Nyama, as raízes éticas da ioga tratada na segunda parte desta Série.

Um dos aspectos de pratyahara é inclusive a visualização interior, especialmente de imagens, que é uma prática muito usada nas meditações tibetanas de visualizações dos Budas. Podemos concluir, por fim, que a verdadeira interpretação para pratyahara seria aquela do refinamento e do envolvimento pleno dos sentidos em torno da prática espiritual.

Os três estágios seguintes da ioga integram samyama -ou seja concentração, meditação e Samadhi. E seriam na realidade estágios aparentemente mais áridos, por assim dizer, caso a pessoa não estivesse já muito imbuída de elementos internos para conferir os conteúdos ocultos necessários.

Pratyahara representa pois um alicerce para as práticas superiores da ioga, sem o qual podemos dizer que os esforços nos estágios avançados como que ficam truncados e reduzidos a variações dos aspectos elementares, como é o caso de Dharana mesma, a concentração, como acontece na maior parte dos esforços meditativos da atualidade. Daí praticamente não se conseguir mais acessar a verdadeira meditação em nossos tempos, reduzidas como ficam as coisas a Dharana tão somente...

Mais que uma abstração dos sentidos numa acepção de afastamento, aquilo que a ioga avançada realmente exige é integridade e refinamento. Por isto nesta altura pratyahara faz um verdadeiro apelo à Alma para que venha participar plenamente das práticas. A Alma como que é convidada a assumir o controle das coisas, deixando os estímulos externos definitivamente de lado. Como a dizer que somente espíritos maduros é que podem realmente meditar com proveito. É em pratyahara que realizamos pois o contato com o Ser, o Observador, o Eu Superior enfim, sem o qual corremos o risco de tentar avançar para as camadas mais avançadas da ioga carregando um ego ainda muito ativo.

Neste aspecto pratyahara tem muito a ver com a segunda iniciação, devocional e de caráter psíquico, que é a consolidação do próprio Templo da Alma.

Talvez a melhor tradução para pratyahara seja “controle dos estímulos”. E no entanto este controle pode ser visto no sentido de um redirecionamento, de uma abstração ou interiorização. Na realidade pratyahara indica um grau de não-identificação com os estímulos sensoriais, um afastamento que se pode observar no relaxamento profundo e também na atitude de observador dos nossos próprios pensamentos.

Tudo isto ajuda pois a afastar a nossa atenção de outros estímulos dispersivos do cotidiano, permitindo ato seguinte efetuar a concentração ou dharana, focalizando a atenção num só objeto, como um mantra ou alguma imagem qualquer, como uma deidade ou um símbolo.

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